Entrevista exclusiva com o criador do Bistecão Ilustrado
O ilustrador Kako criou um encontro mensal de ilustradores em São Paulo – e inspirou eventos semelhantes em várias capitais do país. Acompanhe entrevista exclusiva:
Época São Paulo - O que é exatamente o Bistecão? Por que o nome?
Kako - O Bistecão Ilustrado é um encontro mensal de ilustradores, criado para criar e reforçar vínculos entre os profissionais da área. Acontece toda última sexta-feira do mês. Lá conversamos muito sobre nosso trabalho, nosso mercado, trocamos contatos, temos a oportunidade de conhecer nossos ídolos, recebemos gente nova que nos procura para dar aquela força e claro, desenhamos muito. É um happy hour mensal, digamos assim. O nome veio do local escolhido para os encontros: o Sujinho, na rua da Consolação, também chamado de “Bistecão de Ouro”.
A ideia foi sua? Quando tudo começou?
Quando criei o Bistecão em 2006 minha intenção era basicamente conhecer outros colegas de profissão. Havia pouco tempo que tinha deixado de ser designer gráfico para atuar apenas como ilustrador. Participava de listas de discussão, me associei à SIB ( Sociedade dos Ilustradores do Brasil ), ia nos escassos eventos organizados, mas ainda sentia falta de conhecer o povo mesmo, de sentar, bater papo. Depois de participar do Ilustra Brasil daquele ano convidei um grupo para ir comigo no Sujinho e foi bem bacana. Alguns meses depois mandei um convite oficial e estamos aí até hoje.
O que mudou desde o primeiro?
Hoje muita gente nova aparece, uma garotada que quer conhecer a profissão antes de se jogar de cabeça nela, e nós acolhemos estes com prazer. Conversamos, damos dicas, vemos portifolio… Acho que muitos ilustradores de minha geração e até de algumas gerações anteriores não tiveram esta oportunidade de contatos tão cedo. No primeiro Bistecão 10 ilustradores apareceram. No mês seguinte 15. Depois 25. Hoje cada encontro tem em média 70 pessoas, entre profissionais, aspirantes, amigos e familiares. Chegamos a ter quase 100 uma vez e nem lembro como fizemos pra manter todo mundo dentro do mesmo espaço. Com o tempo, também conseguimos atrair a atenção da mídia para uma profissão que raramente se dá nota em jornais ou revistas, sem falar da aproximação com pessoas que viram o potencial do encontro para a profissão e para o mercado como um todo. Temos um parceiro hoje, a escola DRC de CG e vídeo digital, que dá desconto nos seus cursos para os participantes do evento, que divulga nosso compromisso com os aspirantes entre seus alunos e por aí vai. É realmente muito mais do que imaginei.
Ilustradores de fora da capital também participam?
Sim, mas o Bistecão também já existe fora daqui. Outros encontros nasceram em outras cidades, pois acho que como eu, outros ilustradores sentiam a necessidade do contato. Destes, o mais ativo hoje é a Cobal Ilustrada, organizada pelo Adriano Renzi no Rio de Janeiro. Havia o Baião Ilustrado em Fortaleza, o Trem Bão Ilustrado em BH e recentemente foi criado o Pinhão Ilustrado em Curitiba. Acho muito gratificante poder ver isso acontecer, crescer desta maneira. Nunca na minha cabeça achei que isso um dia poderia acontecer.
Existem planos futuros para o Bistecão e o que rolou de legal e imprevisto nos ultimos tempos?
Não fazemos muitos planos pro futuro pois nossa intenção é básica: encontrar os amigos no fim do mês. Acho que se desviar muito disso perde o sentido. Temos algumas brincadeiras que se desenvolvem durante os tempos que são bacanas, como o sorteio de peças produzidas na hora, mas tudo é criado sem planos mirabolantes. Um exemplo de um imprevisto corriqueiro que se tornou uma coisa legal, no ano passado percebi que o pessoal estava desenhando menos nos encontros. Todo mundo leva seu caderno de rascunhos, mas sempre existe o preciosismo por mais que um sketchbook tenha a intenção de ser experimental ou documental. Tomei emprestada a idéia de outros restaurantes e joguei uns papéis nas mesas e a Casa do Artista gentilmente cedeu várias caixas de giz de cera pra espalhar por todo lugar. E o povo começou a desenhar de novo, e bastante. No primeiro dia que tivemos o papel, no finzinho da madrugada veio a questão “O que fazer com isso?”.
E foi então que nasceram os cadernos de desenho?
Sim, casualmente veio a ideia de transformar tudo em caderno de desenho. O Montalvo Machado levou os papéis para casa e fotografou. Depois pegou o estilete e passou nos papéis sem dó nem piedade, e foi juntando os blocos e encadernando um por um. Hoje, temos material para mais de 100 cadernos. Cada um deles leva um pouco do Bistecão: você abre e encontra tanto folhas em branco prontas para serem desenhadas como surpresas, desenhos de outros ilustradores já estampados aleatoriamente. Estamos sorteando e distribuindo os cadernos e queremos que um dia todo mundo que foi ao Bistecão tenha um. Ainda não sabemos o que vamos fazer com isso, mas como disse, não queremos pensar muito sobre isso agora.
Você acha que o Bistecão é um lugar que incentiva o pessoal que esta começando a ilustrar? De que maneira?
Sem dúvida alguma. Quem me dera quando mais novo ter um lugar onde pudesse encontrar muitos dos profissionais que admirava cara a cara. Me lembro quando o Hector Gomez sentou na minha frente durante um Bistecão e eu não o conhecia pessoalmente, apenas por emails, e quando descobri quem era virei moleque de novo, fui transportado para o fim dos anos 80, quando eu babava na capa do Amazing Muchachas. Já recebemos veteraníssimos como Gilberto Marchi, como o Benício, como o meu querido Negreiros, e muito outros. Já recebemos o Sábat lá da Argentina. O povo do Rio como o Alarcão ou Marcelo Martinez volta e meia aparecem também. Gente que faz você parar de respirar ao ver rabiscar na tua frente. Isso incentiva até pedra a desenhar! Além disso, você tem a oportunidade de poder perguntar sobre técnicas, métodos de trabalho, aprender toda a parte administrativa que batemos tanto a cabeça para aprender sozinhos.
Qual o grande barato de juntar uma galera e ficar desenhando em um bar, restaurante ou mesmo nas ruas?
Para mim desenhar é estar em constante aprendizado. O meu barato todo se resume a conviver com pessoas com quem tenha afinidade e aprender com elas. É se sentir efetivamente parte de um grupo.
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